quinta-feira, 24 de setembro de 2009

“Sophie, cale-se!!”

Logo eu que tenho profundos problemas com rejeição fui encrencar com o trabalho da artista visual francesa Sophie Calle, que levou um fora do namorado através de uma carta (um e-mail pra ser mais exata) e transformou o episódio em uma grande exposição que está em cartaz no Museu de Arte Moderna da Bahia. Vai ver que ela está me irritando porque em seu lugar faria no máximo uma grande confusão, sem sucesso de público, sofreria calada, e não faria nada mais criativo além de voltar para psicanálise. Reconheço publicamente, depois de muitas discussões com os meus colegas de trabalho, que invejo Sophie Calle, mas isso não faz com que eu perca a piada nem o senso crítico (o bom humor eu já perdi). Sim ... Sophie é o máximo, comprovei olho no olho enquanto lhe entrevistava, mas para começo de conversa fiquei sem entender porquê uma mulher tão interessante não foi capaz de elaborar a rejeição, o fim, o luto, sem fazer um grande espetáculo, badalado de Veneza ao Mam, passando por NY, tão contundente quanto a atitude desesperada de uma pobre mortal, que por desconhecer as artimanhas da performance ameaça se jogar da janela porque perdeu um grande amor (mas nunca pula, o que indica um conhecimento intuitivo da performance). Como isto não pegaria nada bem para uma francesa com modos burgueses, Sophie Calle planejou inteligentemente, elegantemente e sorrateiramente, sem que o ex-parceiro desconfiasse, a sua ópera multimídia que ainda contou com a participação de 104 mulheres (deve haver uma explicação para o número) convidadas para ajudá-la a interpretar o que está dito de uma forma muito clara na carta. Oh my dog!! Sinceramente Sophie Calle me pouparia se tivesse resolvido o problema no divã, ou convidado apenas as amiguinhas mais íntimas para opinaram sobre o fatídico e-mail em seu próprio blog, ferramenta que parece servir de inspiração para a exposição “Cuide de Você!”. Além de esgarçar limites entre o público e o privado, a excelente montagem exibe comentários, fotos e vídeos, que poderíam ser feitos por um amador (nada contra), se valendo do espaço museológico como uma imensa página da internet. Em tempos de reality shows e outras formas de “escancaramento” da intimidade a artista visual se vale das mesmas estratégias das celebridades para atrair os holofotes da mídia e fisgar o grande público, e ainda, ambígua e performática se mostra nervorsinha quando é interpelada por perguntas pessoais, um show perfeito. Não digo com tudo isso que o trabalho de Sophie Calle é vazio e desinteressante, muito pelo contrário, ele coloca em discussão importantes paradigmas da contemporaneidade, mas mesmo assim confesso que fui tomada por uma espécie de mal estar no vernissage, afinal de contas por que eu tinha que saber algo tão íntimo sobre alguém que não é minha melhor amiga? Senti o mesmo enjôo de quando insisto curiosa em folhear revistas de fofoca em salões de beleza, mas a esta altura eu já estava ali, junto ao publico baiano incapaz de qualquer consideração crítica sobre qualquer coisa, fazendo parte do jogo mirabolante e neurótico de Sophie Calle, sem dúvidas uma grande obra de arte.

Lulu.

10 comentários:

  1. Logo você que admira tanto a performance e os perfomers com estas opiniões? Aliás, você morde e assopra o tempo todo. Afinal, gostou ou não de Sohpie? Eu me amarrei! Adoro essa capacidade de transformar uma coisa aparentemente banal ou chata em algo no mínimo questionador. Depois estamos na sociedade do espetáculo onde tudo cabe, tudo é permitido! Pelo amor de jah! Desarme este bico e mergulhe na insanidade de Sophie. Lembre que ela é artista e portanto tudo pode!

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  2. O bom da arte é exatamente causar algo, nem que seja um sentimento contrário do que imaginado pela autora. A indiferença é que é fueda.

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  3. Escreve mais aê! Só na pire o cabeção!!!

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  4. Lulu...muito bom poder te ler e acessar teus devaneios daqui... rs sobre a expo, passou por aqui, mas não cheguei a ver :/
    devaneia mais que vou acompanhar as nuances soteropolitanas pelo teu viés! muitas saudades! Maru

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  5. hei luciana, que delicia ler/sentir comentários inteligentes sobre uma performance fútil. há muito tempo não estava em companhia da burguesia soteropolitana, que acha o máximo respirar ares franceses. aquela quantidade de telas LCD poderiam ter produzido imagens bem mais ricas que aquelas onde - gatas totais - como maria medeiros ou laurie anderson conseguiram modelar engessadas numa estória de uma mulher - entre tantas - que gostam de homens comuns. como diria renato russo "mais do mesmo".

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  6. no seriado THE L WORD, uma artista plástica se vale do mesmo recurso intimista para processar, através de uma grande instalação, o fora q tomou da namorada (isso há uns 4 anos atrás...).
    parabéns à sophie q se deu bem seguindo à risca o conselho do poeta cazuza: "obrigada por me trair e me dar inspiração pra eu ganhar dinheiro...".
    e parabéns a vc, lu, pelo blog!
    bjs, dumas

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  9. Linda minha, que seu comentário é quase tão opulento quanto a obra de Sophie, é vero, mas é assim desses que fazem uma diferença, que levantam a sobrancelha e causam uma rusga... agora, intimidades artisticamente assumidas ou (des)privadamente expostas são tão comuns... Ou há uma diferença entre a ficção e a representação da realidade? não há, 'orale pues'. A-do-rei. Conta mais, vai, desse seu rondar por aí. Bom demais te ver hoje, linda, (e 'lenda' as always).Love.

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  10. "Vai ver que ela está me irritando porque em seu lugar faria no máximo uma grande confusão, sem sucesso de público, sofreria calada, e não faria nada mais criativo além de voltar para psicanálise."

    Yep.

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